sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Desentendimentos





Um dilema. Várias dúvidas. Por que somos assim? Por que o entendimento pleno se torna hercúleo entre as pessoas? Culturas diferentes? Vivências únicas? Seja lá o que for, é uma tarefa de chinês paciente entender as pessoas. Um  exemplo para ilustrar: Há alguns meses, houve uma reunião de condomínio para definir a nova cor do prédio, já que a última era digna de uma visão pós-apocalíptica hollywoodiana. Bom, condôminos à mesa, iniciou-se o debate (entenda-se: embate!). Sugestão vai, sugestão vem... e eu pensando em tudo quanto é coisa exceto numa cor. E lá iam pensamentos dos mais diversos: desde como o Google criou o Android até qual deve ser o tamanho do coração de uma baleia jubarte, passando pelos túneis subterrâneos de Paris e por que são sete notas musicais e não 8, 10 ou mesmo 5? Eis que os presentes chegam onde eu queria: a futura cor! Aí sim, vamos resolver logo porque quero uma cerveja - pensei. Até então, cor - no meu entender - é um fenônimo físico. Ou seja, uma determinada frequência de onda eletromagnética a qual é percebida por células nos nossos olhos, transformadas em impulsos e interpretadas pelo nosso cérebro. E, dentro do espectro visível podemos simplificá-las com nomes tais como azul, vermelho, amarelo e etc. O problema é que parte do público ali pensa ligeiramente diferente. Então apareceram sugestões - digamos - estranhas. Bege, ok eu entendo. Mas daí marfim, areia, gelo, pergaminho, camelo, gengibre, e sabe-se lá mais o que! E lá vai o bate-boca provocado pelos moradores desta nobre construção. Imaginem um grupo de mais ou menos doze à quinze pessoas falando ao mesmo tempo num tom acalorado sobre essas bizarras cores que a tia do primário nunca havia mencionado sequer que existiam. Indaguei educamente:
- Mas que p§%&# de cores são essas?
- São todas tons de bege.
- É tudo a mesma m&#$%?
- É, mas tem diferença.
- Tá... ok, o que vocês decidirem tá decidido.
Desisti de entender tamanha parvoíce. Quem foi o à toa que inventou essa quantidade absurda de nomes para cores praticamente idênticas? E mais: como esse povo sabe todos esses nomes e as mais sutis diferenças entre esses tons? Das duas uma: ou tenho um grave problema cromatológico, ou esse povo faz parte de alguma seita secreta das cores infinitas. O que mais me dói é saber que perdi duas preciosas horas discutindo algo extremamente nonsense como o sexo dos anjos. Afinal, que diferença ia fazer? Se o prédio fosse azul, vermelho ou até mesmo preto com listras amarelas eu continuo morando nele. Me preocupa mais as cores internas do apartamento do que qualquer outra. 
Isso é só pra mostrar como uma simples questão pode se tornar um suplício pra um TDAH. Pra mim, bastava uma enquete, de papel mesmo, passada por debaixo das portas e posteriormente entregue ao síndico. O problema é que não consigo adaptar o mundo a mim. Ainda bem.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Estar ou não estar



Quem aqui gosta de ficar sozinho, levante a mão. Antes, deixe eu explicar: no meu último e primeiro encontro com membros com TDAH (eles falam em portadores, mas no meu humildade entender, tem alguma coisa estranha nesse termo) várias pessoas contaram um pouco de suas experiências e expectativas. Um certo membro do grupo, um rapaz muito inteligente, nos disse que adora estar e trabalhar em grupo. Aquilo, dentro do meu universo cultural e de experiências vividas, me pareceu tão bizarro quanto o céu ser verde. Por que? Porque simplesmente adoro estar sozinho. Calma. Vou explicar. Não repudio a convivência em grupo, mas a minha produção enquanto estou sozinho se sai muito melhor do que quando estou reunido. Tudo começou quando eu era criança. Sempre nutri um gosto um tanto quanto "desviado" da maioria, ou seja, enquanto os meus amigos queriam jogar futebol, o meu interesse era um jogo de xadrez, política, economia, jazz, enfim; longe da dita normalidade. Sou mais inteligente? Não, apenas desenvolvi um interesse em algumas áreas não tão populares. E isso se perdura até hoje. Sempre ouvi dizer: "Nossa, como você inteligente." ou "Como você entende dessas coisas?". Gente, se eu fosse assim tão inteligente, seria o Eike Batista. É sério. Apenas foquei o meu interesse em coisas que me dão prazer. 
Bom, voltando ao assunto acima, quando esse nosso colega disse aquilo, senti-me extremamente transtornado. Pensei: "Fodeu! A minha situação é pior do que imaginava!". Eis que um nobre colega, autor do blog TDAH - Reconstruindo a Vida, proferiu que adora ficar sozinho. Que alívio, dois adoradores de momentos egoístas coexistiam num mesmo ambiente ao mesmo tempo. Portanto manifestei-me prontamente para que este nobre 'solitarista' (roubei isso dele, nem sei se aprova...) soubesse que existe outro com a mesma aspiração.
Adoro encontrar os meus amigos para uma cerveja, discutir porlítica, economia. legislações diversas, tecnologia e até mesmo as mais refinadas técnicas de como preparar uma picanha perfeita com embasamento em preceitos da física e química. Da mesma forma que goiabada é só mais um doce entre vários, futebol pra mim é só mais um esporte. Não odeio, só não me aflora esse tesão todo. Dormir numa final de copa do mundo? Mole. Basta estar com sono. Agora, eu juro que estou tentando gostar; sério. Meu filho adora bater uma bolinha. Na escola, em casa, aonde quer que seja. Da última vez que joguei uma pelada, marquei dois gols. Contra. Agora lá vou eu de novo. Vamos ver no que vai dar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sonhos


Pense: para que serve um sonho? Seria uma meta inalcançável? Um ponto tão distante que parece não se aproximar, tais como as estrelas numa noite de lua nova? Ou simplesmente aquela cenoura pendurada numa vara de pescar atraindo o burro sempre na mesma direção?
Seja qual for a explicação, eles nos movem. São o combustível que me faz querer ser uma pessoa melhor diariamente. E olha que tenho vários defeitos. Talvez um deles seja acreditar demais. 
Já acreditei em muita gente, muitas promessas e muitas coisas. Tudo isso teve um lado bom mas também um destruidor. Esse é o nosso problema, quando somos do "bem", não imaginamos do que os outros são capaz. E aí depois de um tempo vem o esquecimento. Sério. Não no sentido de perdoar, no literal mesmo. Talvez o mais devastador de tudo, é o fato de esquecermos os nossos erros. Culpa da falta do foco? Pode ser. Mas e aí? Cadê o Doc Emmett Brown com um inoxidável DeLorean para me permitir voltar alguns anos e experimentar os outros caminhos, aqueles ignorados. 
Valeria à pena voltar? Imagine você na adolescência com aquele Brasil outrora esquisito mas com a sabedoria que tem hoje. Uma provável consequencia seria a riqueza financeira, mas aí entrariam outros fatores que não se manifestam hoje. Quais? Sei lá! Clarividência não é um forte da minha parte.
Mas voltando aos sonhos, confesso que atingi alguns. Hoje, sou casado com a pessoa que sempre quis ter mas não imaginava que existia. Tenho dois maravilhosos filhos que me fazem ter mais tesão pela vida. E - é preciso reconhecer - tenho ótimos amigos. Existe outros sonhos menores que ainda não os atingi, mas que preciso para que me sinta realizado. Sinto que não muito longe, eles aparecem no meu horizonte. Entretanto, ainda sobra chão. Muito chão. Problema não, a vantagem de ser TDAH é que a gente esquece todas as pedras  nas quais tropeçamos e isso nos faz cabeça-dura. Alguma vantagem tinha que ter esse negócio de ser cabeça-de-vento.
Vou parar por aqui... em poucas horas será hora de acordar e ir trabalhar. Já ia me esquecendo de dormir.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

É hora de começar

Mais dia, menos dia eu teria que começar esse blog. É algo que me cobro há algum tempo. 
Para encurtar a história, vai um breve resumo:
Meu nome é Gustavo, tenho 32 anos, sou casado e tenho dois filhos. Até aí, vocês devem pensar: "Mas que mala, e eu lá quero saber da vida dos outros?" Acontece que nesse caso - não sou melhor que ninguém e nem pretendo - me acompanha há bons 30 e tantos anos um tal de TDAH, com foco na desatenção e com pitadinhas de hiperatividade. Tragicômico. Pra quem não sabe o que é isso, o que duvido pois em todos os cantos há um, é aquela pessoa que é desatenta, hiperativa ou impulsiva; ou tudo isso junto! Às vezes somos chamados de sem-noção, cabeça-de-vento ou até mesmo de "muito-doido".
 - Fulano? Qual? Aquele muito-doido?
 - É, lembra?
E por aí vai. Passamos constrangimentos sem nem notar. Esquecemos de dar os parabéns aos próprios pais, filhos e até aos amores de nossas vidas. Fechamos negócios com o mais pilantra dos homens e depois esquecemos de tudo isso como se fosse um sonho mal lembrado. 

Já fui chamado de insensível, sem alma, homen das cavernas e sabe-se lá mais o que! Não concordo. Gosto mais de Louis Armstrong do que Tony Bennett, também prefiro Dalí ao invés de Banksy e de Stanley Kubrick no lugar de Woody Allen. Viu? Mas e daí? Isso não adianta para a maioria das pessoas.
Mas o que realmente importa? Pra vocês, sinceramente não sei, mas eu quero separar o trágico do cômico. E de preferência mandar pra bem longe. Conto com vocês.